Mulheres e o mercado de trabalho

Março: Mês da Mulher

No Brasil, a participação da mulher no mercado de trabalho tem crescido anualmente. Nas últimas décadas, o número de mulheres empregadas com carteira assinada mais que dobrou. Entretanto, os tipos de ocupação, os cargos e os salários dessas mulheres não acompanharam a evolução do número de postos de trabalho. Existe ainda uma enorme distância entre homens e mulheres nesse cenário.

Ocupações “tipicamente” femininas

As profissões historicamente relacionadas com as mulheres, como o trabalho doméstico, são as que possuem menor remuneração. Na educação, por exemplo, há uma divisão clara. Os professores que atuam em escolas particulares, no Ensino Médio, onde está centrada a melhor remuneração, são em sua maioria homens. Nas escolas públicas, nos estágios da educação infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental, onde estão as menores remunerações, temos quase que unicamente mulheres exercendo a docência.


Os tipos de ocupação, os cargos e os salários das mulheres ainda são muito inferiores aos oferecidos aos homensAs mulheres ainda ganham menos que os homens para realizar o mesmo tipo de trabalho, e os cargos de chefia e com melhores condições laborais são destinados aos homens. Mesmo tendo mais anos de escolaridade que os homens, as mulheres ganham em média 30% a menos que seus colegas do sexo masculino.

Acúmulo de papéis

Outro aspecto importante e que não envolve apenas o mercado de trabalho é que as mulheres, mesmo exercendo profissões remuneradas, ainda continuam sendo as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas e educação dos filhos. Conciliar a vida profissional e as atividades da vida pessoal ainda é um desafio muitas vezes impossível para as mulheres trabalhadoras. Esse provavelmente é um dos principais fatores que favorecem a perpetuação desse panorama desigual.*

A questão da dupla jornada feminina não está apenas na sobrecarga, muitas vezes, insuportável. Reside também no problema real da rejeição do mercado de trabalho à mulher com responsabilidades familiares. A mulher que possui filhos, muitas vezes, é preterida em seleções de emprego ou para cargos de chefia.

Alternativas para a diminuição do abismo que ainda separa homens e mulheres no mercado de trabalho podem vir de políticas públicas que priorizem abertura de vagas e ampliação do número de pré-escolas, creches e escolas de tempo integral. Além disso, é necessário e inadiável nutrir o debate e a desconstrução dos papéis sociais de gênero a fim de edificar um mercado de trabalho e uma sociedade mais igualitários em condições e oportunidades para homens e mulheres.

Possibilidades

Políticas públicas que promovam a criação e ampliação do número de creches e pré-escolas são urgentes, já que constituem recurso efetivo de diminuição da carga e da quantidade de atividades de cuidado realizadas pela mulher.

É necessário também discutir e alertar para a necessidade da promoção da igualdade de gênero e de distribuição mais equilibrada dos históricos papéis sociais de homem e mulher. A dicotomia mulher-cuidadora versus homem-provedor precisa ser superada por meio do diálogo e da ação. Homens e mulheres podem e devem conviver de maneira mais harmônica no universo do trabalho remunerado e das responsabilidades familiares.

*Relatório: O Desafio do Equilíbrio entre Trabalho, Família e Vida Pessoal – OIT – Pnud

Por Amarolina Ribeiro – Graduada em Geografia –  https://brasilescola.uol.com.br/geografia/

As profissões historicamente femininas estão entre as que possuem menor remuneração e status social
As profissões historicamente femininas estão entre as que possuem menor remuneração e status social

Por Jornal Nacional

O desemprego na pandemia atingiu com mais força as trabalhadoras no Brasil. De acordo com um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, a participação das mulheres no mercado de trabalho é a menor em 30 anos.

Em junho, Núbia estava feliz: tinha acabado de ser contratada depois de meses de procura. Mas o emprego como recepcionista durou só 12 dias.

Não foi só com a Núbia. Tem mais mulheres fora do mercado de trabalho do que dentro dele. A participação delas, que vinha em uma tendência de alta nas últimas três décadas, caiu para apenas 46,3% entre abril de junho de 2020. Em comparação com o mesmo período de 2019, a queda foi de 7 pontos percentuais. A participação dos homens no mercado de trabalho também diminuiu, mas menos: 6 pontos percentuais.

participacao feminina mercado de trabalho

O pesquisador do Ipea vê algumas razões para a perda de espaço das mulheres. “O primeiro é que as mulheres estão em alguns dos setores que foram muito afetados. Segundo, elas têm uma carga maior de trabalho não remunerado em casa, esse trabalho aumentou na medida que as escolas ficaram fechadas e terceiro lugar elas foram mais beneficiadas com o auxílio-emergencial que tinha o objetivo de manter as pessoas em casa”, diz Marcos Hecksher.

“Soma se a isso, também, as questões do trabalho remoto. Mulheres inseridas em profissões, em ocupações que também foram mais afetadas pela pandemia, setor de serviços, hotelaria, que dificultam os exercícios dessas atividades de forma remota”, afirma Cecília Machado, professora e pesquisadora da FGV.
A maior queda na participação no mercado de trabalho foi entre as mulheres que tem filhos pequenos, de até dez anos. Nesse grupo, a proporção de mulheres empregadas ou procurando trabalho nesse grupo despencou de 58% no segundo trimestre de 2019 para pouco mais de 50%. E são elas as que mais têm dificuldade de voltar a trabalhar neste momento ou mesmo de procurar uma vaga.
Os filhos de um e dois anos que a Larissa cria sozinha exigem dedicação em tempo integral. Até para gravar a entrevista é difícil. Ela pediu demissão do trabalho em abril, logo depois que as creches fecharam. Mas como no caso dela, o auxílio emergencial – que deveria vir em dobro, R$ 1.200 – não foi aprovado, ela teve de pedir ajuda para o pai e tenta um trabalho de meio período. Até agora, nada.
“A pergunta que mais fazem é: ‘quantos anos seus filhos têm, com quem poderia ficar e se tão na creche ou se não tão’. É de doer o coração de qualquer mãe”, conta a garçonete desempregada Larissa da Costa Nascimento. (Jornal Nacional 07/09/2020)

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